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Nossa Resposta à Reforma

Várias igrejas e organizações têm ideias diferentes sobre como os cristãos devem se portar

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Benedikt Peters/Chamada, 02/11/2017 22h49

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Várias igrejas e organizações têm ideias diferentes sobre como os cristãos devem se portar no ano da Reforma. Qual deve ser a reação aos 500 anos de Reforma?

Nesse ano recordamos o grande reavivamento espiritual que Deus concedeu em vários países da Europa, há 500 anos. Por que o fazemos? A antiga história do povo de Israel responde a essa pergunta, em Juízes 2.6-11. Quando o povo de Deus esquece as grandes obras de salvação, esquece também de Deus e recai no paganismo e na idolatria. Isso ocorreu no cristianismo protestante, que não sabe mais nada ou não quer saber das grandes obras de Deus à época da Reforma.

“Combata o bom combate da fé... guarde o que foi confiado a você” (1Tm 6.12,20). “Portanto, não se envergonhe de testemunhar do Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro dele, mas suporte comigo os sofrimentos pelo evangelho, segundo o poder de Deus” (2Tm 1.8). “Eu os estou enviando como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas. Tenham cuidado, pois os homens os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas sinagogas deles. Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis como testemunhas a eles e aos gentios” (Mt 10.16-18).

No dia 18 de abril de 1521, um monge agostiniano de 38 anos de idade estava diante do rei do Sacro Império Romano da nação alemã, juntamente com os maiorais do reino e dignitários da igreja, e falou as seguintes palavras:

“Se eu não fui convencido pelos testemunhos das Escrituras e pelas claras bases sóbrias – pois não acredito nem no papa nem mesmo unicamente nos concílios, uma vez que estamos no dia em que eles erraram várias vezes e se contradisseram –, assim fui convencido em minha consciência pelas passagens das Escrituras Sagradas que mencionei e cativado na Palavra de Deus. Por isso não posso e não quero revogar nada, pois, fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável”.

Enquanto o monge Martinho Lutero comparecia diante do parlamento, os olhos de toda a Alemanha estavam voltados para ele. Todos queriam saber como o monge se derrotaria. Quando ele pronunciou as palavras anteriormente citadas, houve a deflagração daquele movimento espiritual que denominamos “Reforma”, do reavivamento espiritual como o cristianismo jamais havia visto desde a primeira geração de cristãos. Esse “minuto de agitação mundial”, ao olharmos retrospectivamente, foi a hora decisiva da Reforma para o reavivamento bíblico que abalou todos os países da Europa e alterou alguns em suas bases.

O que levou o monge Martinho Lutero, doutor em teologia, professor da Universidade de Wittenberg, a defender seu posicionamento diante das Escrituras diante do rei do Império?

Em 1517, Lutero havia fixado suas famosas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg. Ele também enviou essas teses ao cardeal Albrecht, de Mainz, assessor de Tetzel, incluindo o sermão sobre graça e indulgência. Nesse ele afirmou resumindo: “Sobre esses pontos eu não tenho dúvida alguma e são suficientemente fundamentados na Escritura”. O cardeal Albrecht encaminhou os documentos para Roma.

Um ano após a publicação das teses, Lutero foi convocado para um interrogatório em Augsburgo (outubro de 1518). O cardeal Caetano, que havia sido encarregado pelo papa, exigiu: “Revoca! Revoca! – Revogue!”. Mas Lutero não conseguiu pronunciar as seis letras REVOCO. Ele permaneceu firme nas provas das Escrituras.

Nove meses depois, aconteceu a discussão com o dr. Eck, em Leipzig (junho-julho de 1519). Nessa ocasião, Lutero respondeu à respectiva questão de que ele não reconhecia a autoridade do papa nem dos concílios. Essa foi a consequência obrigatória em razão do que ele havia escrito no seu sermão sobre graça e indulgência. Lutero já então havia assinalado o desvio e não podia nem desejava retroceder: somente a Escritura é a fonte da verdade e o direcionamento para a fé e para a vida.

Em 1520 surgiram os textos de Lutero: “Sobre o Papado em Roma”, “À Aristocracia Cristã da Nação Alemã”, “Sobre o Cativeiro Babilônico da Igreja”, “Sobre a Liberdade de Uma Pessoa Cristã”, sendo que todos eles, com base somente na autoridade da Escritura, rejeitam a autoridade do papa e ensinam sobre a justificação pela fé.

Em junho de 1520 Lutero recebeu a bula de exortação e condenação “Exsurge Domine”: “Levanta-te, ó Senhor, e julgue a tua causa, as raposas procuram destruir a tua vinha e um javali especialmente selvagem é quem a cuida”.

No dia 10 de dezembro de 1520 Lutero queimou a bula diante do Portão de Elster, em Wittenberg. Em janeiro de 1521 ele recebeu a segunda bula condenatória “Decet Romanum Pontificem”.

Diante de tudo isso, Lutero foi intimado pelo parlamento. Na noite de 18 de abril de 1521 ele compareceu diante do parlamento em Worms. Os livros, que haviam sido escritos por Lutero e que haviam sido lidos por toda a Alemanha, estavam expostos em uma mesa e Lutero foi obrigado a responder se ele reconhecia ser o autor desses livros e se ele estaria disposto a revogá-los. Sua resposta foi:

“Se eu não fui convencido pelos testemunhos das Escrituras e pelas claras bases sóbrias – pois não acredito nem no papa nem mesmo unicamente nos concílios, uma vez que estamos no dia em que eles erraram várias vezes e se contradisseram –, assim fui convencido em minha consciência pelas passagens das Escrituras Sagradas que mencionei e cativado na Palavra de Deus. Por isso não posso e não quero revogar nada, pois, fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável. Que Deus me ajude, amém!”.

A afirmação-chave foi clara: Lutero considerava somente uma autoridade, isto é, a da Bíblia. Todos precisam se curvar diante dela, todos precisam se avaliar com base nela, mesmo o papa e os concílios. Já na 62ª tese das 95, Lutero havia afirmado: “O Evangelho é o verdadeiro tesouro da Igreja...”.

Todavia, as teses foram escritas em latim e a intenção era que servissem de base para uma disputa científica entre colegas de ofício. Para o povo, Lutero escreveu o sermão sobre indulgência e graça no idioma alemão e ali consta a frase desrespeitada e problemática em referência às 18 teses formuladas no sermão: “Sobre esses pontos eu não tenho dúvida alguma e são suficientemente fundamentados na Escritura. Por isso vocês também não devem ter dúvidas. Deixem que os doutores escolásticos sejam escolásticos”.

O que eliminou todas as dúvidas? Onde Lutero encontrou tal certeza? O que ele havia escrito estava “suficientemente fundamentado na Escritura”. Aquilo que lemos na Escritura é vinculante, e é “suficiente”, basta! Não há necessidade de saber mais do que isso. Assim, que os escolásticos, os mestres da igreja, ensinem o que quiserem.

Essa frase continha teor explosivo que abalou o papado e o levou a ruir em vários países. Era uma frase com potencial ofensivo extremo: alguém estava afirmando que a Escritura seria a única norma a seguir. Isso foi um desafio aberto contra a obviedade do domínio absoluto da igreja do papa. Esta também reconhecia a autoridade da Bíblia. Além dela, no entanto, haveria mais duas fontes adicionais da verdade: as tradições e o ensino da igreja. E isso significava: a igreja decidia e determinava como a Bíblia deveria ser entendida.

Essa tese, de que unicamente a Escritura determina e fundamenta a verdade, foi a que deu início ao processo de inquisição, o qual concluiu, primeiramente, que Lutero fosse banido pela igreja e, posteriormente, perdeu o reconhecimento diante do país.

Esse foi o motivo do incômodo, e assim permaneceu até hoje: somente a Bíblia e a Bíblia para todas as questões. Essa verdade serviu de tropeço para os da era antiga, da nova, da moderna e da pós-moderna. Ela serve de tropeço para ateus e piedosos, para pensadores e para os que nunca pensam – para todos. Isso é algo insuportável para todos: uma verdade absoluta, ilimitada e imutável, disponível por escrito e formulada claramente, compreensível para todos. Somente a Bíblia e nada mais além dela.

E para nós, o que significam essas verdades proclamadas por Lutero e também por Martin Bucer, Ulrico Zuínglio e Heinrich Bullinger, João Calvino e Guilherme Farel, John Knox, incluindo os anabatistas Balthasar Hubmaier, Michael Sattler, Menno Simons e outros pregadores do século XVI? Estamos vivendo numa época em que se procura igualar todas as diferenças entre as religiões e confissões.

Vivemos em uma época em que se evita imediatamente assumir um posicionamento claro ao distinguir entre verdade e erro. Pertencemos a uma geração em que as igrejas protestantes fazem de tudo para ter boas relações com a igreja católica romana. Em 31 de outubro de 1999, teólogos protestantes e seus colegas católicos assinaram uma declaração, em Augsburgo, na qual ambas as confissões aparentemente creem e defendem a mesma doutrina sobre a justificação.

E hoje, no país da Reforma, os mais altos representantes das igrejas católicas e das evangélicas deverão comemorar juntamente o Jubileu da Reforma. Foi o que afirmou ninguém menos do que o presidente do Conselho das Igrejas Evangélicas da Alemanha, o bispo Bedford-Strohm, que visitou pessoalmente o papa em Roma com a finalidade de convidá-lo para participar.

A pressão do espírito da época é imensa e a tendência ecumênica está cada vez mais forte. Quem se opõe a essa tendência é considerado inimigo do cristianismo, como inimigo da paz e, finalmente, como inimigo das pessoas. Pois hoje a ampla maioria acredita que todas as barreiras religiosas e das maneiras de ver o mundo deveriam ser rompidas e todas as diferenças separatistas deveriam ser igualadas. Considera-se que a Reforma provocou uma cisão na igreja e discussões dogmáticas que culminaram em guerras religiosas.

No entanto: o que diz a Escritura?

“Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hb 4.12). “Deus é luz; nele não há treva alguma” (1Jo 1.5). “Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos? Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus: ‘Habitarei com eles e entre eles andarei; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo’ Portanto, ‘saiam do meio deles e separem-se’, diz o Senhor. ‘Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei’” (2Co 6.14-17). “Então ouvi outra voz dos céus que dizia: ‘Saiam dela, vocês, povo meu, para que vocês não participem dos seus pecados, para que as pragas que vão cair sobre ela não os atinjam! Pois os pecados da Babilônia acumularam-se até o céu, e Deus se lembrou dos seus crimes’” (Ap 18.4-5).

Essas são divisões firmes, claras diferenças, ordens inequívocas. O evangelho é a Palavra de Deus e, assim, a única e exclusiva fonte da verdade. Somente na Bíblia a pessoa encontra a compreensão a respeito da salvação. Cristo é o Salvador das pessoas, e ninguém mais. Somente por meio da graça a pessoa recebe perdão, justificação e, assim, a vida. Sobre essas verdades comprovadas na Bíblia não existe barganha. Precisamos nos afastar de pessoas que não ensinam ou defendem essas verdades.

Qual é a nossa resposta à herança da Reforma? Podemos responder à Reforma ao nos colocarmos decididamente contra as opiniões e poderes da época, do mesmo modo como os reformadores o fizeram. Ao contestarmos decididamente as ideias dos líderes da filosofia, da religião e da política. Quando estamos decididos a defender a verdade que Deus nos revela no Evangelho, a ensiná-la e a proclamá-la da maneira como Deus nos ajuda a fazê-lo. Essa é a ordem que recebemos.

A Escritura é soberana. Tudo precisa se submeter ao seu julgamento. Tudo o que a Escritura ensina é a verdade coerente. O cristão verdadeiro reconhece, a exemplo do que fez Lutero em Worms, que ele “foi convencido pelo testemunho da Escritura”. E a Escritura comprova: Cristo o chamou, justificou e santificou. Em Cristo ele é uma nova criatura (2Co 5.17), uma criação de Deus (Ef 2.10). Não é ele quem vive agora, mas é Cristo quem vive nele (Gl 2.20). Ele foi “convencido em sua consciência, cativado na Palavra de Deus”. Ele foi convencido pela verdade de Deus e, assim, convencido, vencido e dominado pelo próprio Deus. Ele não mais pertence a si mesmo (1Co 6.19).

“Quando aquele um, que é maior do que Satanás, ataca e vence a este, então passamos ao domínio desse mais forte. Então igualmente seremos dominados, prisioneiros do Espírito Santo... Então, desejaremos e faremos de boa vontade aquilo que Deus quiser.”

A doutrina tem prioridade, isto é, a verdade bíblica sobre Deus, a pessoa e a salvação. Lutero compreendia que tudo dependia da doutrina. Em seu trabalho e anseios ele não se preocupava com a decadência dos costumes e da perdição do clero romano e do papa, mas com a doutrina corrompida do sistema romano. Com a clareza própria de Lutero, ele declarou:

“A vida está ruim tanto para nós como para os do papa. Por isso, não discutimos por causa da vida, mas por causa da doutrina”.

A doutrina era o que importava. É o que aprendemos da Bíblia. Depois que as pessoas se converteram após ouvirem a pregação do evangelho, no dia do Pentecostes, elas permaneceram firmes na doutrina dos apóstolos (At 2.42), pois a tarefa dos cristãos era pregar e defender o evangelho. A igreja é a coluna e o fundamento da verdade (1Tm 3.15). Ela existe para sustentar a verdade da salvação em Cristo e mantê-la efetivamente na doutrina e na pregação. Paulo escreveu a Timóteo: “Ordene e ensine essas coisas. Ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza. Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino... Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto você mesmo quanto aos que o ouvem” (1Tm 4.11-16).

Se a igreja não mantiver essas orientações, ela perdeu seu objetivo e perdeu a razão de ser. Ela se degenera tornando-se um “clube social” ou, como Martyn Lloyd Jones o definiu certa vez, uma associação de lazer. Ou se torna um fórum de discussões para troca de ideias sobre as múltiplas possibilidades da vida religiosa e de estilos de vida piedosa, o que seria uma das características de nossa civilização. Uma igreja dessas vendeu sua alma, tornou-se uma prostituta espiritual.

São essas as alternativas. Nós, que pertencemos à noiva eleita de Cristo, permanecemos firmes no evangelho de Deus, nos separamos de todos que diluem, adaptam e reinterpretam o evangelho. O próprio Deus nos ordenou:

“Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos?” (2Co 6.14-16).

Ou seguimos com crescente anseio em direção ao grande dia das bodas do Cordeiro, ou adaptaremos o evangelho ao gosto das pessoas e praticamos prostituição com o príncipe dessa era. A grande prostituta será condenada nos juízos que em breve se abaterão sobre o globo terrestre.

A doutrina precisa ser pregada. A verdade sobre a salvação em Cristo precisa ser divulgada. Foi Deus que determinou isso, que a justificação ocorre somente por meio de Cristo e somente pela fé. Por essa razão, Cristo e a salvação conquistada por ele na cruz precisam ser proclamados; pois Deus providenciou a Palavra como o único meio que proporciona a salvação: “Consequentemente, a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” (Rm 10.17; cf. Jo 17.20).

Heiko Oberman escreveu na biografia sobre Lutero: “A Reforma conseguiu penetrar tão profundamente no povo porque Lutero descobriu uma surpreendente consequência do princípio da Escritura: ela precisa ser pregada”.

Em seus escritos “Contra os Profetas Celestes”, de 1525, Lutero escreveu sobre a necessidade de proclamar a Palavra: “A Palavra, a Palavra, a Palavra o faz. Mesmo que Cristo fosse entregue e crucificado mil vezes em nosso lugar, tudo seria em vão se a Palavra de Deus não tivesse vindo, repartido comigo e me presenteado, e tivesse dito: isso é para você; tome-o e guarde-o para si”.

A Palavra de Deus e a verdade estão sempre em oposição aos desejos das pessoas. Por isso surgem lutas. Precisamos, no entanto, tentar compreender o efeito da resposta de Lutero diante do parlamento. Ela foi um prenúncio de luta, uma declaração de guerra contra a ordem que estava em vigor desde o início da Idade Média: a igreja era representante do céu e o imperador era responsável pelo governo do mundo. O que o mundo deseja é ordem, paz e bem-estar, mas ele quer tudo isso sem Deus, e sem a sua verdade. Lutero falou as seguintes palavras contra isso diante do parlamento reunido:

“Para mim... de todos os aspectos, o mais aceitável é que surgem ciúmes e brigas por causa da Palavra de Deus. Aliás, essa é a tendência, o efeito da Palavra de Deus conforme o próprio Cristo diz: eu não vim para trazer paz, mas espada”.

Acontece que a Palavra de Cristo, o evangelho da salvação, é a espada, e isso transforma em inimigos os membros da uma mesma família, e os que até então eram amigos em opositores. No entanto, esta Palavra é o poder de Deus para a salvação. Por isso ela deve ser testificada, mesmo que isso conduza inexoravelmente à indignação e controvérsia.

Quatro anos após os acontecimentos em Worms, Lutero escreveu para Erasmo, esse intelectual proeminente que sabia equilibrar tudo respeitosamente, a esse talvez maior humanista que se esforçava ao máximo para não causar brigas e inquietações:

“Com o seu conselho, você [Erasmo] pretende determinar que, por consideração ao papa e aos maiorais ou em favor da paz na terra, deixemos temporariamente de proclamar a verdade. [...] Você não leu ou não observou que desde sempre o destino da verdade foi de causar revolução no mundo? Foi isso que também Cristo afirmou, quando disse abertamente: ‘Não vim trazer paz, mas espada’ (Mt 10.34). E mais: ‘Vim trazer fogo à terra, e como gostaria que já estivesse aceso!’ (Lc 12.49). [...] Leia em Atos dos Apóstolos! Veja tudo o que aconteceu apenas porque Paulo pregou! O quanto esse homem conseguiu motivar gentios e judeus! O quanto ele movimentou toda a terra! Foi o que disseram até os seus inimigos (At 17.6)”.

Devemos manter a verdade escondida somente para que tenhamos calmaria e para salvar a paz no mundo? Trata-se da única mensagem de salvação; trata-se do destino de almas; trata-se, acima de tudo, da glória de Deus.

Lutero sabia o que dizer se fosse acusado diante do parlamento, e ele sabia claramente das devidas consequências. No dia 29 de dezembro de 1520, ele escreveu para Georg Spalatin:

“Um chamado do imperador significa que sou chamado por Deus. E mais: se eles usarem de violência contra mim, o que é muito provável, [...] então preciso confiar tudo às mãos do Senhor. [...] Nesse caso não se pode levar em conta o perigo ou bem-estar; nesse caso permanece uma só preocupação: que nós não nos descuidemos do evangelho com o qual aqui comparecemos, permitindo que sejamos zombados pelos ímpios, que não demos motivo de vitória para nossos inimigos como se não ousássemos professar livremente nossa doutrina, que não tenhamos medo de derramar nosso sangue em favor do evangelho. Que Cristo, em sua misericórdia, nos resguarde de tal covardia e de uma tal vitória deles. Amém!”.

Quando Lutero esteve diante do imperador, ele sabia que este precisaria apenas falar uma palavra e o herege seria preso e encaminhado para Roma. E isso teria sido o seu fim.

Cremos que somente a Bíblia é a Palavra de Deus e que somente o evangelho de Deus é o poder de Deus para a salvação? Se for assim, então também estamos dispostos a pôr nossa cabeça a prêmio por ela.

Todos os servos de Deus precisaram enfrentar a batalha pela verdade da Bíblia e do evangelho bíblico. Vejamos isso rapidamente na vida de John Knox, Heinrich Bullinger e do pastor Wilhelm Busch.

John Knox, o reformador na Escócia, nasceu em 1514 e faleceu em 1572. Pelas suas incansáveis viagens e pregações através de todos os recantos da Escócia, a Reforma se espalhou e, em 1560, a igreja escocesa assumiu uma confissão de fé reformada na Confessio Scoticana. A Escócia se tornou um Estado protestante. Todavia, havia inimigos convictos contra a Reforma:

Maria Stuart foi da França para a Escócia a fim de, na condição de rainha, reintroduzir a fé católico romana. No dia 24 de agosto de 1561, em seu primeiro domingo em solo escocês, ela mandou celebrar a missa no Palácio de Holyrood, em Edimburgo. Diante disso, John Knox não conseguiu se calar; na primeira oportunidade, “no domingo após o primeiro ato da monarquia em Holyrood, os moradores de Edimburgo ouviram o sonoro tom de fanfarra da sua voz, falando do púlpito: ‘Uma missa é mais terrível do que se o reino tivesse sido invadido por dez mil inimigos armados’”.

A ideia de Knox a respeito da missa ele já havia inserido na Confessio Scoticana, a confissão de fé escocesa. Ali, no capítulo 23, consta: “Essa doutrina é uma ofensa a Cristo Jesus e uma negação da suficiência do seu sacrifício salvador único [...] por esse motivo nós a detestamos ao máximo, a odiamos e a rejeitamos”.

Toda a sua vida estava marcada por testemunhos de alerta contra a missa: “Quero prestar contas por constantemente explicar que a missa é, e sempre foi, um culto idólatra e uma abominação [...] a idolatria mais abominável praticada desde o início do mundo”.

Joseph Chambon avalia a julgamento do reformador escocês com as seguintes palavras: “A ideia de que uma pessoa possa se atrever [...] por meios próprios, tornar concreto o Santo Deus em Cristo, para adoração dessa substância pela igreja, para constantemente repetir a morte vicária de Cristo na cruz em todo seu valor e efeito através dessa matéria, faz com que seu sangue ferva incessantemente. Para definir a vida de Knox se poderia escrever: ‘O zelo pela tua casa me consome’. O fato de que o protestantismo de nossos dias mal compreende o horror diante da missa, ou é algo que fala em favor da missa, a qual não se modificou, ou fala contra o protestantismo, que estaria modificado”.

Knox foi imediatamente acusado perante a rainha e convocado a se responsabilizar. Ela percebeu já no começo que Knox não aceitava negociar. A rainha declarou: “Eu entendo – meus súditos devam obedecer a você e não a mim!”.

Knox lhe respondeu: “Eu me esforço, majestade, para que autoridades e súditos obedeçam a Deus”.

A rainha: “EU!”

Knox: “Obra de Deus!”

A seguir, a jovem e, como consta, bela e encantadora rainha tentou comover o pregador do evangelho com suas lágrimas.

Knox: “Eu preciso antes, mesmo contrariado, suportar as lágrimas de sua majestade do que ousar ferir minha consciência”.

Resultado: ódio incansável e mortal dessa fina dama contra um pregador do evangelho. Ela tentou, por todos os meios, eliminá-lo do mundo. No entanto, nada deteve John Knox. Por isso Joseph Chambon fala da “vontade quase terrivelmente imprevisível e obstinada do homem John Knox em varrer a falsa doutrina romana e de implantar a fé evangélica para a salvação em todo o país”.

Lancemos o olhar sobre o segundo centro de Reforma, em Zurique. Heinrich Bullinger (1504-1575) era o colaborador 20 anos mais jovem de Ulrico Zuínglio. Após a morte deste, continuou com a implantação da Reforma e a consolidou. Em 1567, nove anos antes de sua morte, publicou uma detalhada apresentação da Reforma na Suíça, sob o título “História da Reforma”. No prefácio, ele escreveu as seguintes frases sobre o objetivo de sua “História da Reforma”:

“Aqui o leitor [...] verá claramente o que a cidade de Zurique suportou em termos de trabalho, agitação, custos, medo e dificuldades antes da Palavra divina ou a proclamação do santo evangelho ter sido amplamente divulgado na confederação. [...] O leitor encontrará muitas obras maravilhosas de Deus, principalmente a tremenda luta da verdadeira religião contra a falsa, assim como também conhecerá as duas. Além disso, quem tem um coração sério [...] vai adquirir e carregar uma eterna animosidade contra a falsa religião”.

Por fim, um exemplo de épocas mais recentes. O pastor evangélico Wilhelm Busch (1897-1966) era um dos poucos cristãos a exercer oposição ao Partido Nacional Socialista. Em 1935, ele escreveu um panfleto com o título: “A Tua Palavra é a Resistência do Nosso Coração: Um alerta para a cristandade evangélica”. Entre outros, nele constava o seguinte:

“A verdadeira igreja de Jesus Cristo não é uma companhia de seguros, mas um acampamento militar. [...] Novamente surgiram forças de paganismo entre nosso povo e que enfrentam o evangelho. [...] Um novo paganismo se levanta como uma tempestade, cheio de ódio contra o evangelho da Bíblia. [...] Nós, no entanto, atacamos o paganismo moderno. Por quê? Atacamos o paganismo por causa de sua idolatria”.

Busch foi intimado pela Gestapo. No dia 17 de maio de 1935 ele declarou para o protocolo da Gestapo: “Eu redigi o folheto ‘A Tua Palavra é a Resistência do Nosso Coração’ porque, como pregador da Palavra de Deus, estou comprometido em alertar nossas igrejas contra todas as doutrinas de homens, que as afastam de Cristo”.

O evangelho nos transforma em escravos de Deus. Enquanto éramos pecadores não estávamos livres; também como redimidos não somos livres. Enquanto éramos pecadores, estávamos presos no pecado e na morte e, assim, estávamos livres da justiça (Rm 6.20). Sendo salvos, estamos libertos do pecado e da morte e, assim, escravos da justiça (Rm 6.18).

Sendo escravos de Cristo, temos a obrigação de obedecê-lo. Temos a obrigação hoje perante o povo de Deus de guardar, defender e ensinar a verdade do evangelho, aconteça o que acontecer. Hoje temos a obrigação, diante de nossos concidadãos, de lhes transmitir a mensagem salvadora da redenção de modo legítimo e sem cortes. E isso significa: Sola scriptura; o que, por sua vez, significa: a Escritura é inequívoca, a Escritura é clara, a Escritura é suficiente e a Escritura é eficaz.

O que impulsionou os testemunhos da época da Reforma e um pastor Wilhelm Busch, e o que deve nos impulsionar, é o imenso e insuperável anseio:

Soli Deo gloria! – A Glória seja dada unicamente a Deus! — Benedikt Peters

 

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